Livro de premiado fotógrafo britânico mostra como El Salvador se tornou distópico

8:17
 
Udostępnij
 

Manage episode 336786524 series 1472638
Stworzone przez France Médias Monde and RFI Brasil, odkryte przez Player FM i naszą społeczność - prawa autorskie są własnością wydawcy, a nie Player FM, a dzwięk jest przesyłany bezpośrednio z ich serwerów. Naciśnij przycisk Subskrybuj, aby śledzić aktualizacje Player FM, lub wklej adres URL kanału do innych aplikacji podcastowych.
Um mergulho no inferno das prisões e nas complexas relações de organizações criminosas que transformaram El Salvador em um dos países mais violentos do mundo. Esse é o panorama proposto pelo livro “Sin Salida” do fotógrafo britânico Tariq Zaidi. Durante dois anos, entre 2018 e 2020, o fotógrafo britânico Tariq Zaidi percorreu o submundo do crime registrando em imagens o retrato de uma sociedade dominada pelo medo e refém de uma disputa sangrenta e cruel entre gangues que espalham o terror por meio de ações de extrema brutalidade. As principais organizações criminosas do país, chamadas de “maras”, são Mara Salvatrucha (ou MS-13) et Barrio 18. Lançado em 2021 pela editora britânica Gost Books, o livro Sin Salida (Sem Saída) expõe as 69 fotos captadas nas várias viagens que Tariq Zaidi fez a El Salvador e traz textos com relatos e análises do que viu. O premiado fotógrafo, que já percorreu todas as regiões do planeta, Tariq Zaidi comenta nessa entrevista à RFI os motivos que o levaram a penetrar nesse universo e a denunciar a violência que, segundo ele, não tem equivalente em outros países, como Brasil e Venezuela. A seguir, trechos da entrevista de Tariq Zaidi à RFI: RFI: Que razões o levaram a trabalhar e fotografar o tema da violência das gangs e seu impacto na sociedade de El Salvador? Tariq Zaidi: Tendo vivido na Venezuela, Brasil e Argentina por cerca de 4 anos e tendo viajado por quase em toda a América do Norte, Central e do Sul por quase 2 anos e meio, essas experiências tiveram um impacto visceral sobre mim. Quando o então presidente (Donald) Trump chamou as caravanas de migrantes da América Central de "criminosas", eu quis entender que tipo de vida essas pessoas estavam deixando para trás ... Eu queria mostrar ao mundo como El Salvador se tornou distópico, e como a extensão, escala e selvageria da violência é diferente de qualquer coisa que a maioria de nós já conheceu. Esta quebra das normas sociais exacerba a situação. Os jovens crescem em condições de guerra e são frequentemente socializados pelas gangues. Na MS-13, (a socialização) começa com uma surra de 13 segundos. Cito um exemplo particularmente horrível: um vídeo amplamente compartilhado mostrava um grupo de integrantes da gangue arrancando as mãos de uma vítima e depois brincando com os dedos, tudo isso enquanto riam histericamente. A onipresença da violência é devastadora para o desenvolvimento psicológico normal. Quando você fala com famílias que sofreram essa violência - assassinatos, desaparecimentos, extorsão, ameaças de morte – você entende que a maioria das pessoas vive seus dias com medo. Pode ser difícil para as pessoas que nunca visitaram o país entender o quanto as normas sociais se desintegraram. Em muitas cidades é impossível atravessar a rua devido às diferenças pelo controle do território das gangues, isolando totalmente bairros e ruas. Ao entrar em um novo bairro, os visitantes muitas vezes têm de sinalizar com faróis do carro ou baixar as janelas para indicar fidelidade à quadrilha que controla o local, ou para mostrar que teme a violência. No livro você diz que “as falhas do Estado e a violência das gangues geraram uma situação em El Salvador que é única no mundo”. Por quê? Não há paralelo com outros países onde também há muita violência de gangues, como por exemplo o Brasil do PCC e outras organizações criminosas? Tariq Zaidi: O que faz a violência em El Salvador ser diferente de outros países como o Brasil, e o Haiti, entre outros países, por exemplo, é que o tipo de violência é mais brutal. As “maras” não matam apenas civis ou outros membros de gangues, elas mutilam, aleijam, para apavorar a sociedade. Elas também fazem parte da vida cotidiana de uma forma que as organizações terroristas muitas vezes não fazem. Elas extorquem e controlam bairros, e se escondem da vista de todos. Por isso, é tão difícil de combatê-las. Frequentemente, é difícil de saber quem é e quem não é membro de uma gangue. As estimativas do número de integrantes das maras em El Salvador variam, mas de acordo dados de 2015 do ministério da Defesa do país, sugerem que até 600.000 salvadorenhos, ou seja, quase 10% do total dos 6,4 milhões de habitantes do país, estão envolvidos com gangues, seja através da participação direta ou através da coerção e extorsão por parentes. A escala da violência também é excepcional. Em 13 dos 22 anos entre 1995 e 2017, El Salvador teve a maior taxa de assassinatos para um país que não estava em uma zona de guerra. Em 2015, a taxa de homicídios subiu de 6 para mais de 100 homicídios por 100.000 habitantes, bem acima dos países em segundo e terceiro lugar com índices altos, Honduras e Venezuela, ambos com taxas de homicídios de 56 homicídios por 100.000 residentes. O impacto desta violência, na minha opinião, paralisou a economia do país, a sociedade e o estado. Suas imagens e o texto que acompanha o trabalho não deixam dúvidas de que se trata de um universo de violência extrema. Conte como você conseguiu entrar nas prisões e nas áreas perigosas dominadas pelas maras? Tariq Zaidi: Normalmente, eu trabalho sozinho ou com um fixer. Mas em El Salvador, porém, tive de trabalhar intensamente com inúmeras autoridades para ter acesso às prisões, à polícia, a centros e locais dos crimes. Tive muitas reuniões com funcionários do governo, e trabalhei com o Instituto de Medicina Legal. Também fiz contato com a força policial, FOCA (Joint Anti-Criminal Operation Force), STO (Tactical Operational Section) e serviços de emergência para atender ocorrências e ataques noturnos por ser um dos primeiros a chegar ao local do assassinato. Também trabalhei com a FGR (Procuradoria Geral da República). No terreno, em El Salvador, trabalhei com uma equipe administrativa totalmente equipada. A equipe me ajudou a conseguir acesso a muitos dos órgãos governamentais, funcionários e locais que mencionei. Você conseguiu visitar todas as 25 prisões de El Salvador? Tariq Zaidi: Foi difícil o acesso e levei quase 8 meses para obter permissão para entrar nas prisões. Eu pedi para visitar todas as gangues possíveis nas penitenciárias para homens e mulheres no país. Mas em 2018, só tive acesso a seis. Voltei em 2019, mas a permissão foi negada pois havia um bloqueio total à imprensa pelo gabinete da presidência. Em 2020, a permissão foi negada novamente, pois o bloqueio para a imprensa continuou e também por causa da Covid-19. Para completar o panorama, você buscou o testemunho de pessoas que perderam familiares, vítimas das gangues salvadorenhas? Tariq Zaidi: Muitas vezes, esperei fora dos Institutos Médicos Legais para encontrar familiares que estavam de luto, como Suzy (nome fictício), que tinha acabado de identificar o corpo de seu filho Brian (nome fictício), de 25 anos. Ela me disse que seu filho tinha sido estrangulado por membros do Barrio 18 por não cumprir as missões que lhe haviam pedido. Ela estava, compreensivelmente muito perturbada, conversamos por um tempo e mantivemos contato. Alguns dias depois, ela me convidou para o velório. Outras vezes, acompanhei a polícia até a cena do crime e encontrei lá membros da família. Eu também fui a muitas cenas de crime, IMLs, velórios e funerais durante esse período que estive lá. Em algum momento você correu algum risco? Você foi ameaçado? Tariq Zaidi: Sim, a maior parte do tempo eu estava trabalhando lá. Por exemplo, fui convidado por Paul (nome alterado), o prefeito de um pequeno município fora de San Salvador, para ver o que ele estava fazendo para proteger sua comunidade contra as quadrilhas. A área onde ele vive é muito mais segura do que o resto do país. Ele tem uma equipe de pessoas que se armam, usam coletes à prova de balas e dirigem em áreas que sabem serem perigosas, procurando por membros de gangues para capturar ou matar. Quando cheguei na casa dele, ele me deu um colete à prova de balas e tentou me dar algum tipo de arma automática, um rifle, mas eu recusei. Entramos no carro e fizemos inspeções de segurança, perguntando às pessoas se elas tiveram algum problema com gangues. O prefeito então recebeu uma ligação de outro carro (de sua equipe) dizendo que tinham detectado atividade de gangues e para nos prepararmos para a ação. Estava muito escuro e nós estávamos em alta velocidade pelas estradas montanhosas, por volta das 2h da manhã. Os outros ocupantes no carro estavam armados. Paul tentou novamente que eu pegasse um revólver. Ele disse: "se nós entrarmos em um confronto, eles cortarão seus braços e pernas. Abaixe sua câmera e pegue esta arma". Eu lhe disse para colocar a pistola carregada nos meus pés e começamos a perseguir um suspeito. Mas depois, um carro na frente nos informou que os membros da quadrilha haviam fugido e que não conseguiríamos encontrá-los. “Isto é o que temos de fazer para manter nossa comunidade livre", disse Paul. Ele recebe com frequência ameaças de morte. Por que escolheu o título “Sin Salida”? Tariq Zaidi: Acho que “Sin Salida” (Sem Saída) resume a situação em todo o país quando este trabalho foi feito, entre 2018 e 2020. Talvez o título também possa ser respondido olhando para a história da guerra de gangues de El Salvador. Para entender, temos que voltar à guerra civil que durou de 1979 a 1992. A guerra foi notória por sua violência brutal e violações dos direitos humanos. Ela deixou pelo menos 75.000 mortos, e milhares de desaparecidos. A guerra também deslocou até 20 por cento da população do país, e pelo menos 500.000 salvadorenhos fugiram para os Estados Unidos. É entre estes refugiados salvadorenhos que podemos rastrear as origens das duas principais gangues do país, MS-13 e Bairro 18. Ambas foram formadas em Los Angeles por adolescentes salvadorenhos que tentavam se proteger de outras gangues estabelecidas na cidade, mas muitos desses jovens foram parar na cadeia por crimes não violentos e se tornaram violentos na prisão. Ao sair das prisões, muitos destes salvadorenhos recorreram à violência, acabando por estabelecer os métodos e redes agora associados com a MS-13. Eles também aprenderam várias técnicas de extorsão, iniciando a "economia criminosa" do bando. Em contraste, o Barrio 18, foi formado nos anos 60 como a primeira gangue multirracial e multiétnica em Los Angeles. No entanto, durante a década de 1980 foi preenchida em sua maioria por refugiados salvadorenhos. As duas “maras” estavam em grande parte limitadas a Los Angeles até o final da guerra civil em El Salvador em 1992, mas isto mudou após um endurecimento das políticas de migração americanas em 1997. Muitos refugiados salvadorenhos foram enviados de volta a El Salvador, e estabeleceram filiais das gangues no país. O que Sin Salida representa para você e que impacto você espera que esse livro provoque nos leitores? Tariq Zaidi: Minha esperança com este trabalho é amplificar as vozes dos salvadorenhos que lutam por direitos básicos, como segurança e uma vida mais segura para seus filhos e famílias. E para que as pessoas vejam com os próprios olhos e entendam que tipo de vida essas pessoas estão deixando para trás e por que tantas são forçadas a fugir e a juntar-se às caravanas em direção ao norte para o México ou para a fronteira com os Estados Unidos.

244 odcinków